TEXTO: Desmistificando alguns equívocos comuns no Serviço Social
Dedico esse texto aos discentes da graduação em Serviço Social que, muitas vezes, confusos pelos discursos contraditórios do corpo docente, acabam por se perder numa visão eclética e messiânica da profissão.
Por quê é importante fazer essa crítica? Porque algumas palavras - especialmente essas que vou problematizar - estão carregadas de sentidos e de intencionalidades. Sendo o(a) assistente social um(a) profissional que intervém na vida da camada mais precarizada da classe trabalhadora, faz-se importante ter a compreensão de que seu vocabulário é mais que uma lista de palavras interessantes: trata-se de um conjunto de visões e perspectivas políticas que podem determinar sua atuação de modo positivo ou negativo.
Então, vamos desmistificar ou desconstruir algumas palavras (perspectivas e visões):
Empoderar
Não empoderamos. É possível empoderar apenas se o profissional tiver super-poderes. Se tiver, ele pode transferi-los para o usuário. Aí o usuário transformará sua vida magicamente derrotando a pobreza e a situação de violência na qual está submetido.
Acreditar que o profissional tem a capacidade de empoderar o usuário é um grande equívoco. O empoderamento é um processo assumido pelo sujeito que se entende e reconhece protagonista de sua própria história, e este processo envolve inúmeras determinações: uma delas é a superação da condição que lhe levou a serviço no qual está sendo atendido. Neste sentido, podemos contribuir para o seu empoderamento fornecendo informações e viabilizando seu acesso aos direitos sociais, bem como subsidiando com criticidade, fortalecendo sua capacidade crítica, entre outras ações.
O empoderamento no Serviço Social não é um processo mágico e empoderar não é algo que o profissional tem condições de fazer, no entanto, através de sua intervenção crítica na história do usuário, poderá contribuir para que ele mesmo se empodere.
Conscientizar
Não conscientizamos. Não é possível transferir sua consciência para outra pessoa, a não ser que você consiga gravar sua consciência num Pen Drive e depois transferir via USB para o usuário. Se for via Blutooth vai ser ainda mais simples.
A consciência é algo construído pelo próprio sujeito que, reconhecendo sua ignorância, busca elementos para constituir saberes. Podemos contribuir nesse processo com trabalhos em grupo, atividades lúdicas, entre outras ações.
Acreditar que o profissional pode conscientizar é afirmar que nosso nível de consciência está acima do nível do usuário, o que é uma inverdade. É melhor reconhecermos que possuímos saberes diferenciados e que o saber dele também pode contribuir para você. O profissional que conscientiza geralmente impõe sua visão de mundo para o usuário; isso não faz parte do nosso projeto profissional.
Emancipar
Não emancipamos. A emancipação é tão complexa e ampla que todos os assistentes sociais do mundo juntos não seriam capazes de realizá-la. A emancipação requer a superação da sociedade de classes e isso é tarefa para a totalidade da classe trabalhadora.
Não há emancipação na sociedade de classes porque a opressão do homem pelo homem constitui a sua estrutura e dinâmica. Repito: a emancipação humana requer a superação da sociedade de classes.
Garantir
Não garantimos direitos. O Estado garante direitos. Nós viabilizamos o acesso a eles. No entanto, o Estado não garante direitos por vocação. É preciso conquistá-los e a luta envolve o conjunto da classe trabalhadora.
Reintegrar
Não reintegramos os indivíduos à sociedade. Todas as pessoas fazem parte dessa sociedade, independentemente de seus problemas e da condição de classe na qual está submetida. Na sociedade de classes há um lugar específico para todas as pessoas. Cabe a nós contribuir para que o trabalhador precarizado compreenda o seu lugar na sua classe, ou seja, sua condição de opressão e submissão, para que ele, o protagonista, tenha o desejo de superar sua condição através de ações individuais e coletivas.
Acreditar que podemos reintegrar é afirmar a máxima da "exclusão". Veja bem: presidiários, desempregados e pessoas em situação de rua, por exemplo, não estão excluídos da sociedade. Totalmente ao contrário, todos fazem parte dessa sociedade e cumprem uma função importante no esquema das classes. Uma delas, bem evidente, é a de mostrar para as pessoas que se não se submeterem à lógica do mercado de trabalho poderão se tornar um deles.
Mediar
Não mediamos conflitos. Não estudamos para isso. Não há nenhuma disciplina no curso de Serviço Social que te prepara para mediar conflitos. Óbvio que o profissional vai atuar no âmbito dos conflitos sociais e familiares, no entanto, não é você quem vai apaziguar as disputas. Muitos profissionais que trabalham na Habitação são chamados para mediar conflitos em reintegrações de posse, por exemplo. Aí sua responsabilidade atribuída pelo empregador é acalmar os ânimos dos ocupantes para que aceitem pacificamente a reintegração. Aceitar esse tipo de chamado é um grande erro especialmente porque nosso trabalho é fortalecer os movimentos de moradia, e não fragilizá-los ou conformá-los à reintegração de posse.
Acreditar que podemos fazer qualquer uma destas ações é tomar para si uma tarefa histórica que cabe ao trabalhador na sua dimensão individual e coletiva. É preciso superar a visão messiânica da profissão. É preciso superar a perspectiva assistencialista. Cada sujeito é protagonista de sua própria história e nós, apenas coadjuvantes.
Se você não aceita a minha análise, ótimo. Você começou muito bem. Rejeitar um conhecimento é um dos passos primários da atitude filosófica. Então, agora leia o Código de Ética do Assistente Social, leia os clássicos da profissão, leia as resoluções do CFESS e se aproprie da profissão. Caso você encontre alguma orientação ou norma que está em desacordo com o que eu pontuei, deixei seu comentário aqui fazendo as devidas referências e eu me proponho a repensar a minha análise.
Espero ter contribuído para que você tenha uma visão mais realista e crítica da profissão.


Portanto, a principal função do(a) Assistente Social, é provocar a práxis na vida dos cidadãos...
ResponderExcluirprofisional do serviço social,somos seres em constante aprendizado,o leque,é infinito.colocar-se no lugar do outro,não é tarefa fácil,mas é preciso.adorei a avaliação acadêmica.exerci minha profissão,por mais de 30 anos,e nada sei.
ResponderExcluirEstou no 3ª Semestre do Curso de Serviço Social, e sempre ouço alguns docentes repetirem estas palavras supracitdas. Agora tenho uma outra visão.
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