TEXTO: Autoajuda, uma ideologia acrítica
Nestes tempos de crise econômica, social e de valores éticos universais, o aprofundamento do pessimismo vem corroborando para o acirramento dos níveis de depressão, suicídio entre outros problemas de ordem mental. Trata-se de um pessimismo não apenas do ponto de vista da relação do indivíduo com sua própria vida subjetiva, mas também objetiva. Infelizmente, muitos deixaram de acreditar no seu potencial de transformação pessoal e isso tragicamente recai na sua crença na possibilidade de transformação social. Afinal, se alguém não acredita na mudança individual, por acaso acreditaria na coletiva?
Muitas são as soluções oferecidas para a solução de problemas que vão surgindo e afetando a vida na sua perspectiva individual e social. Uma dessas soluções é a ideologia da autoajuda. Quero problematizá-la.
O que é a autoajuda? O termo, aparentemente, fala por si mesmo: um conjunto de estratégias que contribuem para que o indivíduo ajude a si mesmo. Apesar da definição simples, arrisco dizer que há outras nuances não aparentes no termo. Há uma intrínseca vinculação da autoajuda com a ideologia que orienta nossa sociedade, o neoliberalismo: a primeira é produto da segunda.
Quero utilizar um exemplo para deixar mais compreensível o meu posicionamento. Vou falar do empreendedorismo.
Há milhões de pessoas desempregadas no mundo. O desemprego assola não só os países subdesenvolvidos, mas os desenvolvidos também. O desemprego é, portanto, estrutural e é parte constitutiva do mercado de trabalho no capitalismo. Sem o desemprego não há como controlar o salário e obrigar as pessoas a aceitarem péssimas condições de trabalho. Veja, este problema é econômico, político e social. Sua resolução depende de ações do Estado no sentido de regular o mercado. Depende da superação do capitalismo e da construção de uma nova ordem societária onde o desemprego não seja uma estratégia de mercado. Depende da luta coletiva dos trabalhadores no sentido de realizarem greves e mobilizações na luta por melhores condições de trabalho. Depende da superação da lógica do acúmulo de capital e a adesão à divisão dos lucros e riquezas produzidas pelos trabalhadores. Depende de vários fatores complexos, por sinal. Mas os coachs de autoajuda te convencerão que o desemprego é sua culpa, que você não é suficientemente qualificado, que você não se esforçou demais. Eles te farão criar estratégias individuais para resolver um problema que não é necessariamente individual. Eles procurarão te tornar um empreendedor da seu próprio sucesso; te convencerão de que a sua vida é um empreendimento e que você terá sucesso caso se esforce e trace as estratégias "corretas". Nesse caso, você precisa ser criativo, proativo, esperto, inteligente, inteligível, perspicaz e por aí vai. O pior de tudo é que se você não tiver sucesso, mesmo depois de tudo o que fizer, eles te convencerão de que você foi único responsável pelas coisas não terem dado certo.
O empreendedorismo é algo bacana é importante: tudo o que foi constituído nesse mundo foi um empreendimento. Porém, o empreendedorismo como perspectiva de vida é algo extremamente complicado especialmente porque a ideologia da autoajuda te faz acreditar que não há nenhum problema com a nossa sociedade, pois o problema é você. Portanto, trata-se de uma ideologia acrítica.
Comecei o texto falando sobre pessimismo. As pessoas estão perdendo a vontade de viver. Estão tirando suas próprias vidas e a dos outros. A autoajuda não é suficiente para tornar as pessoas felizes: absolutamente, nenhum sujeito basta a si mesmo. Ninguém empreende nada sozinho. Apesar de termos condições de produzirmos diversas coisas boas para nós mesmos, sempre vamos precisar da ajuda e do apoio de outros. A ideologia do empreendedorismo individualista não muda o mundo para os outros; apenas favorece uns poucos que enriquecerão, porém, a grande maioria de empreendedores (os empreendedores indigentes) continuarão pobres e fracassados porque neste modelo de sociedade não há espaço para muitos ricos, pois a pobreza é um dos pilares constitutivos da riqueza.
Seria melhor nos voltarmos para um tipo de empreendedorismo coletivo, um tipo que pode subverter a lógica do individualismo. Ninguém constrói nada sozinho, muito menos fracassa única e exclusivamente sozinho.
Sobre a autoajuda, não poderíamos substituí-la pela (alter)ajuda? Talvez, dessa forma possamos dar um sentido social para o empreendedorismo, menos foco nas ações individuais e mais colaboração na construção de uma sociedade plena, justa e que produza pessoas felizes, com a ajuda do outro e sem essa coisa de sucesso ou fracasso.
Aqui uma música que vai te ajudara refletir melhor sobre a estrutura e dinâmica da auto-ajuda:



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