TEXTO: Funk é arte?
Existem muitas formas de se ver, entender e sentir a arte. Algumas formas são complementares. Outras acabam por entrar em conflito, pois são diametralmente opostas. Vou me ater a duas visões sobre arte que são opostas e não se complementam. Por serem opostas, geram muitos conflitos e confusão. Na minha visão, seria muito ingênuo da minha parte discutir o Funk sem, antes, traçar o que eu entendo por arte.
Não vou fazer uma discussão acadêmica, pois não sou especialista no assunto, então, vou tratar de uma maneira que contribua para quem tem interesse no assunto; para que o interessado se sinta provocado e orientado a, posteriormente, se aprofundar no assunto.
Em primeiro lugar - existe uma corrente de pensamento que defende que a arte não é qualquer coisa, que não qualquer tipo de objetivação humana. Nessa visão a arte é uma objetivação que necessariamente deve humanizar, que necessariamente deve elevar a pessoa à uma condição humano-genérica para que, dessa forma, possa se colocar acima da realidade aparente para enxergá-la como realmente é, enxergá-la em sua concretude para transformá-la. Em termos mais simples, essa corrente defende que, ao se encontrar com a arte, independentemente de sua manifestação (música, livro, teatro, pintura etc.), a pessoa deve se tornar mais consciente para poder agir de forma mais humana e ética, e isso pode torná-la um agente de transformação do mundo ao seu redor.
Em segundo lugar - e como falei no começo sobre visões diametralmente opostas - existe uma corrente de pensamento que defende que qualquer objetivação humana pode ser arte, a depender da intenção do artista ou de quem está contemplando. Essa corrente defende, de igual maneira, que a arte pode humanizar e tornar a pessoa mais consciente.
Bem, como podemos ver, essas duas correntes adotam a arte como uma dimensão importante da vida, porém, a enxergam de forma antagônica. Eu nunca estou em cima do muro, então, defendo uma posição sobre arte e essa posição está alinhada com a primeira perspectiva que citei: de que a arte não é qualquer coisa e nem deve ser, pois nem tudo é capaz de elevar a pessoa a um estado de consciência mais abrangente e positivo.
Por exemplo, se eu for numa exposição de arte e a obra for um tênis sujo preso num poste com uma meia caída no chão, quais são as possibilidades?
- É legal? É.
- É divertido? É.
- Pode me remeter à algum momento da minha infância? Pode.
- Pode me trazer alguma experiência sensitiva? Pode.
Pode me ajudar a entender a realidade na qual eu vivo e me fazer enxergar o mundo de maneira mais ética a ponto de me transformar numa pessoa mais humanizada? Aí é que está o X da questão. Na minha visão, essa obra é uma objetivação da realidade, ou seja, é uma manifestação da vida concreta, porém, vazia dos sentidos necessários para me transformar numa pessoa melhor, pois não é por ser uma objetivação humana, ou manifestação da vida concreta, que é arte.
Nem toda objetivação é arte, mas toda arte é uma objetivação.
Por qual motivo estou problematizando se o Funk é arte ou não? Na verdade, eu usei o Funk apenas como chamariz para discutir um assunto que é muito mais amplo. Mas é importante mencionar que o Funk é um estilo que as pessoas gostam de polemizar e isso tem um motivo muito específico: o preconceito. O Funk é um estilo musical da periferia e isso, por si só, já o coloca como um alvo, pois, somos uma sociedade extremamente preconceituosa a avessa à qualquer coisa proveniente da periferia. Somos uma sociedade realmente problemática.
A questão mais importante, na minha análise, é que o Funk, assim como qualquer outro estilo musical, pode ser arte, assim como pode não ser. É complexo mas, também, muito simples. Vou dar um exemplo:
(...)
Minha cara autoridade, eu já não sei o que fazer
Com tanta violência eu sinto medo de viver
Pois moro na favela e sou muito desrespeitado
A tristeza e alegria aqui caminham lado a lado
Eu faço uma oração para uma santa protetora
Mas sou interrompido à tiros de metralhadora
Enquanto os ricos moram numa casa grande e bela
O pobre é humilhado, esculachado na favela
Já não aguento mais essa onda de violência
Só peço a autoridade um pouco mais de competência
Eu só quero é ser feliz
Andar tranquilamente na favela onde eu nasci, han
E poder me orgulhar
E ter a consciência que o pobre tem seu lugar
A letra acima é da música "Eu só quero é ser feliz" de Cidinho e Doca. Na minha análise, não se trata apenas de uma letra e melodia que apresentam pura e simplesmente a realidade da favela. Aqui podemos ver uma intencionalidade no sentido de se denunciar a injustiça vivida pelos favelados, aqui podemos ver como a contradição entre pobreza e riqueza se materializa de fato. Também podemos ver o pertencimento dos artistas que querem viver no seu lugar, ou seja, querem pertencer de forma legítima ao seu território com muito orgulho. Poucas músicas, na minha humilde análise, atingiram um nível de consciência a respeito dos favelados tanto quanto essa. Na minha visão, uma verdadeira obra de arte; por todos os motivos que eu descrevi anteriormente nesse parágrafo. Dessa forma, não é uma uma objetivação nua e crua da realidade; está realmente apresentando a realidade de maneira crítica.
Vem Gatinha...
Vamos faze besterinha
vem Gatinha
Vamos faze besterinha
e tu vai se minha comidinha
Vem gatinha
Vamos faze besterinha
Esse é um trecho da letra da música "Besteirinha" de Os Caçadores. A pessoa que defende que tudo é arte vai dizer que essa letra é uma obra de arte, mas eu não. O que vemos aqui é uma manifestação nua e crua de uma determinada realidade. Não tem sentido humanizador, não tem criticidade, não tem a intenção de transformar a pessoa num sujeito mais consciente. Na verdade, esse tipo de música faz o contrário. Aqui vemos uma letra misógina, a qual reproduz a mulher apenas como um objeto de prazer e diversão do homem. Esse tipo de música legitima a dominação do macho escroto e quando cantada por crianças e adolescentes constrói uma visão de mundo extremamente negativa (diferentemente da música "Eu só quero é ser feliz", que constrói uma visão de mundo positiva). Eu jamais vou dizer que a música "Besteirinha" é arte, pois a arte é necessariamente positiva.
Com essa comparação trouxe aqui uma constatação de realidade: tudo está permeado de contradição. A periferia produz o belo, mas também o que não é belo. Apesar de o Funk "Besteirinha" de Os Caçadores não ser nada positivo, podemos dizer que é a materialização de uma cultura: aponta como o machismo estrutural se realiza na periferia e, a partir daí, podemos fazer uma rica análise antropológica com o objetivo de entender para mudar a realidade.
Longe de sermos reducionistas, essa análise não se fecha ao Funk e a periferia. Essa análise se aplica a qualquer estilo musical, a qualquer território geográfico, a qualquer cultura. O Rock, o Sertanejo, o Samba, o Pagode, a MPB, entre outros; todos esses estilos podem produzir material positivo ou negativo, arte ou barbárie. Vai depender muito da intencionalidade de artistas que sempre respondem a visões de mundo determinadas pela forma como se constituíram enquanto seres humanos.
Os nazistas também produziram música, cinema, fotografia, pintura etc. É possível dizer que os nazistas produziram arte? De forma alguma, não é possível. Toda objetivação constituída por uma visão de superioridade/inferioridade não pode ser arte. Jamais será. Então, a ideia de que qualquer coisa feita por uma pessoa no âmbito da experiência estética é arte, na minha visão, é muito frágil.
Então, depois de tudo isso, o melhor mesmo é a gente parar de discutir se Funk é arte ou não, pois, essa é uma discussão sempre calcada no preconceito. Não tem como não ser.
A perspectiva correta, a meu ver, é olharmos para cada música, pintura, fotografia, poesia, teatro, escultura etc., para cada manifestação estética do ser humano e ponderar se aquilo realmente foi positivo, se foi humanizador, se ampliou a nossa visão de forma abrangente, se nos tornou seres éticos e dignos, se nos apresentou a realidade através de uma perspectiva que até então eu não tínhamos adotado. Se essa manifestação fez isso por nós, então, é arte. Se não fez, é porque se trata de uma objetivação sem sentido, uma manifestação nua e crua da realidade.
É importante entender que toda cultura deve ser compreendida, pois, assim como a arte, a cultura (em suas manifestações positivas ou negativas) materializa o ser humano em sua complexidade e em toda a sua contraditoriedade.
Discutir esse tema é sempre atirar uma pedra num vespeiro. Existem muitas pessoas que acham essa discussão uma perda de tempo. Tem gente que vai ficar ofendida com o que eu escrevi.
Não estou preocupado.
Estou apenas problematizando uma discussão que é muito mais complexa, ampla e rica do que posso expressar num texto de blog. Mas, fico feliz em, pelo menos, poder plantar alguma semente de consciência no leitor, trazendo-lhe curiosidade intelectual e, convenhamos, ter curiosidade intelectual é sempre um passo importante para a construção de conhecimento.



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